2017-06-01.jpg

01 jun 2017

As Beiras - Entrevista

Notícias \ As Beiras - Entrevista

O presidente da administração da cooperativa farmacêutica Plural está apostado em que a estrutura que dirige atinja a cobertura nacional de distribuição de medicamentos em 2019

A Cooperativa Farmacêutica Plural acabou de construir novas instalações de grande dimensão, que refletem o crescimento da empresa. Quando começa a funcionar a nova sede?

A partir de 11 de junho, domingo, vamos iniciar toda a operação e logística, a partir do novo armazém, construído nas antigas instalações da Fábrica da Cerveja. No dia seguinte, algumas das rotas de distribuição de medicamentos já vão partir daqui, mas ao fim de uma semana já espero ter toda a atividade neste edif ício. Foi concebido e implementado um sistema específico de automação, que exigiu todo um processo de desenvolvimento, mas como, nesta atividade, só é possível fazer testes em condições reais, assim será feito, até porque já executámos projetos deste tipo noutros armazéns do país. Esta é a nossa central logística nacional, embora também existam armazéns na Maia, Covilhã, Caldas da Rainha, Montijo e Faro.

 

Não houve dúvidas sobre o facto de a cooperativa continuar a manter a sede em Coimbra?

Embora as empresas que deram origem à Plural fossem sediadas na zona Centro e duas delas na cidade de Coimbra, é mais por uma opção estratégica que nos mantemos aqui: tem a ver com a localização, porque é a que faz mais sentido para ter a plataforma logística e o desenvolvimento do negócio. Esta localização é importante pela proximidade a norte e a sul, dando resposta às necessidades de reposição nas farmácias de duas vezes por dia.

Estamos em cerca de 75 por cento do território nacional. Já trabalhamos com quase 40 por cento das farmácias do país, ou seja 1.200 (que são cooperadores da Plural) e cerca de três mil no total. Há clientes com graus de fidelização diferentes, mas nenhuma farmácia trabalha em exclusividade com apenas um fornecedor.

Temos uma frota de cerca de 70 viaturas e preparamos diariamente 1.500 encomendas. São 26,7 milhões de embalagens por ano, ou seja 75 mil embalagens por dia.

Como cooperativa, temos tido um crescimento orgânico. Não adquirimos, nestes 20 anos, nenhuma empresa, após as fusões iniciais. Isto quer dizer que, deste modo, o crescimento é mais dif ícil e mais moroso, mas já atingimos o quarto lugar das maiores empresas de distribuição farmacêutica – sendo que as duas primeiras são empresas multinacionais – e 10 por cento da quota de mercado.

 

Este crescimento, com novas instalações, é também uma aposta na tecnologia…

Ao longo da existência da Plural, já passámos por várias fases de investimentos tecnológicos. Os investimentos foram sendo adaptados aos momentos económicos por que vai passando o país, que condicionam algumas decisões, mas também pelas ofertas tecnológicas que foram aparecendo no mercado, nomeadamente nos sistemas de automação e processamento de encomendas, mas também pelo uso de um dos melhores sistemas de informação, como é o cado deste novo, que instlámos: o SAP, em que todos os módulos da empresa trabalham.

 

São as máquinas que, cada vez mais, executam as tarefas?

Quando se está a fazer a preparação, já há muitos procedimentos que são 100 por cento isentos de intervenção humana, onde é o próprio robô que opera, enquanto há outros que são semi-automáticos. Não há papel f ísico no processo de acompanhamento da encomenda. Só no momento de chegar ao cais de expedição é que são identificados os clientes e os locais a que se destinam, por uma questão de segurança e de confidencialidade.

 

Neste setor a margem de erro tem que ser mínima…

Tem de haver um grande rigor desdea entrada da mercadoria à expedição. O que cada farmácia quer é receber o medicamento a tempo e horas e sem qualquer tipo de erro. Portanto temos que investir em processos que minimizam, ou eliminem, a possibilidade de troca de medicamentos. No nosso caso o erro é mínimo, desde a entrada da mercadoria, com um processo informático que controla balanças de grande precisão e tapetes transportadores, para reduzir ao mínimo os tempos da operação. Na preparação de encomendas aumentámos em 10 por cento a capacidade e 50 por cento da densidade de armazenamento, uma vez que é feito em altura.

Na expedição fizemos um investimento importante num cais coberto com 182 rampas de expedição, que permitem dividir encomendas por rotas, por clientes, ou por volume. Estão também preparados pontos de carga de viaturas elétricas, que serão uma realidade num futuro próximo, porque somos uma empresa que olha sempre para as questões ambientais. Por isso, o edifício novo está dotado de GTC, que é um sistema de gestão centralizada de recursos energéticos, nomeadamente na climatização do armazém, com um máximo de 25 graus centígrados. Outros exemplos interessantes são uma bacia de retenção das águas pluviais de toda a cobertura, para rega dos jardins, assim como a instalação de 850 painéis fotovaltaicos para auto-consumo.

 

Que vantagens existem para as farmácias e para o consumidor – seja no preço, seja na qualidade de serviço – o facto de existir um investimento de uma empresa que opera no setor grossista dos medicamentos?

 

Quanto a preços, estes são atribuídos por lei. Agora, a vantagem de ser uma empresa cooperativa, é que os seus cooperadores são, simultaneamente, os seus clientes e os seus proprietários. Isto permite que sejam eles a decidir, em completa independência, quem dirige a cooperativa, são eles que aprovam, em assembleias gerais, os relatórios e contas e são eles que aprovam Temos uma frota de cerca de 70 viaturas e preparamos diariamente 1.500 encomendas. São 26,7 milhões de embalagens por ano, ou seja 75 mil embalagens por dia. Como cooperativa, temos tido um crescimento orgânico. Não adquirimos, nestes 20 anos, nenhuma empresa, após as fusões iniciais os orçamentos dos anos seguintes. Ou seja, há aqui um envolvimento de todos, que se alarga à segunda fase da cadeia do medicamento.

Isto é importante: o cidadão comum está habituado a chegar à farmácia e ter o seu medicamento, mas para isso há um processo logístico que garante que o medicamento chega lá, seja num grande centro urbano, seja no local mais recôndito lugar do interior ou da fronteira deste país. É uma vantagem que o setor cooperativo conseguiu através da sua aglutinação.

Ainda não há muitos anos, os colegas do interior tinham que ir à “carreira” buscar as encomendas, com todo o desconforto que isso implicava, para além dos medicamentos não serem transportados nas melhores condições de temperaturas controlada.

 

Os cooperantes são ativos e participativos nesse processo de gestão?

Nós tentamos que sim. Os corpos sociais, naturalmente que sim, porque são todos eles sócios. Todos os outros participam nas assembleias gerais, onde partilhamos as nossas estratégias. Naturalmente que eu gostava que participassem mais, com as salas cheias, que era uma satisfação. Se nem sempre é assim é porque, dizem os colegas presentes, as coisas estão a correr bem e os sócios confiam.

 

Por ser uma cooperativa, a Plural foi importante no apoio às farmácias que passaram pela crise resultante da alteração da política do medicamento?

Se as farmácias não tivessem apoio de estruturas cooperativas como esta e outras, do ponto de vista associativo, podíamos ter assistido ao desmantelamento daquilo que é a estrutura existente.

Tenho o privilégio de ser o presidente do Conselho Farmacêutico Nacional, que é um fórum em que a atual bastonária me colocou para assumir a coordenação, e ainda recentemente, num encontro no Porto, alguns colegas com fortes ligações internacionais diziam que Portugal é dos países com melhor funcionamento da rede de farmácias, beneficiando das estruturas de classe e das cooperativas de distribuição, que lhe deram estabilidade e solidez.

Desde 2010 que as farmácias viveram momentos muito dif íceis, com uma quebra de valor em termos do mercado do medicamento no Serviço Nacional de Saúde. Houve abaixamento de margens nos preços porque, muitas vezes, quando não se consegue fazer o controlo da despesa a nível do Ministério da Saúde, tomam-se medidas administrativas, que são as mais fáceis para o Governo. Ou seja, nesse anos, até ao início de 2016, quando a situação estabilizou, houve uma redução do mercado de cerca de três mil milhões de euros para dois mil milhões, ou seja um terço de redução no ambulatório. Quem tinha feito investimentos ou remodelações das suas farmácias, encontrou muitas dificuldades.

O ano de 2016 encerrou com um volume de negócios equivalente a 2010, ou seja foi necessário fazer seis exercícios anuais para recuperar e, mesmo assim, foi com novos clientes, porque aumentámos o leque de sócios e a qualidade dos nossos serviços: Mas nunca vamos voltar aos números do início da década.

 

E o serviço prestado ao consumidor final; foi afetado?

Houve muitas farmácias que tiveram que ser restruturadas. Cerca de 600 farmácias estavam numa situação crítica. Algumas encerraram momentaneamente ou estiveram em situação de gestão por administradores judiciais, mas acabaram por ser adquiridas por pessoas que já estavam no setor. Ou seja, para o cliente, o serviço foi sendo compensado por farmácias vizinhas.

 

Qual é então o contexto atual no setor das farmácias?

Já é possível pensar ano a ano, preparando os orçamentos com rigor. Ou seja, o setor respondeu de forma muito positiva e competente.

 

Teve também que se adaptar à entrada em forma dos genéricos no mercado?

Nós aqui temos uma resposta reativa, ou seja, o que entregamos às farmácias é aquilo que a farmácia pede. Não somos nós os “drivers” do mercado no sentido de dizer que se deve seguir este ou aquele segmento de medicamentos.

Acompanhámos, portanto, a tendência, o que significa, atualmente, um peso de 47 por cento de genéricos, no total de volume de medicamentos. Ou seja, 47 caixas em cada100 dispensadas numa farmácia são de genéricos.

 

Quais são os objetivos a atingir a curto, médio prazo?

Tenho como desígnio no final deste mandato – que termina no fim de 2019 – conseguir uma cobertura nacional de 100 por cento. Não depende só de nós; o mercado é muito competitivo, mas temos que procurar inovar na nossa área; que não seja apenas pelo preço que fazemos a diferença, mas numa lógica de crescimento orgânico com qualidade.

 

| António Rosado

Partilhar notícia